O FORRÓ
Todo sábado, àquela hora, de banho tomado, já estávamos prontos para sair. Porém, naquele 13 de março, algo dizia que o forró iria melar. Chovia insistentemente e para piorar, um canto de caboré, vindo lá da matinha, anunciava que a noite seria toda de chuva.
Fiquei estático em frente á janela da sala, olhando os pingos da chuva caindo sobre a bananeira. Eles deslizavam sobre as folhas, numa sincronia jamais vista. Aquele espetáculo afastava momentaneamente a ansiedade que sentia. A chuva caia e ainda mais forte, contribuindo ainda mais para o espetáculo na bananeira.
De repente, como um apito no fundo do ouvido, veio novamente o canto daquele pássaro. Minha atenção voltou-se rapidamente para o agoureiro. Tive vontade de pegar a espingarda e por um fim naquele timboseiro. Mas contive-me quando Chiquinho, cheio de entusiasmo, disse que começava a clarear lá para os lados da toca do morcego.
A toca do morcego é um lugar meio sinistro. São duas pedras afastadas uma da outra, uns três metros em baixo e se encontram na parte de cima, formando de tal maneira uma pequena caverna. E o mais curioso é que tem uma nascente em seu interior. Meu primo Maciel, disse que viu, certa vez, um bicho muito esquisito lá na toca. Segundo ele, era uma mistura de cobra com lagartixa e preá. Depois que contou essa historia, ninguém queria entrar mais naquele lugar.
A chuva continuava, enquanto Vadico, meu irmão mais velho, dava os últimos retoques no cabelo. Ele era uma figura impressionante. Arrumava cuidadosamente fio a fio o cabelo e só parava quando estivesse perfeito. Namorava Suzana, uma morena de lábios vermelhos, que sorria o tempo todo. Isso deixava o mano velho amarradíssimo naquela neguinha.
Eles namoravam a mais de dois anos, tempo que segundo minha avó Zizinha, era mais que suficiente para que se casassem. Entretanto, ele nem pensava nessa hipótese. Era só mencionar a palavra casamento, que o malandro vinha com mil desculpas.
Já o Chiquinho, com sua enorme timidez, enfrentava muitas dificuldades para relacionar-se com as garotas. Certa vez, nossa prima Márcia, que morava em Belo Horizonte, foi passar férias em Pirinópolis. A moça, com seus gracejos de cidade grande, deixou o maninho numa situação que dava dó. Ela falava-lhe coisas tão bonitas e o mané, experiente apenas em correr atrás de mula, dizia uma asneira atrás da outra. Se eu e Vadico não estivéssemos por perto, o tatu teria se estrepado ainda mais.
Vovó Zizinha vivia dizendo: esse menino não puxou o pai. Geraldino quando tinha a idade dele, já arrastava muitas moças para o rela-bucho. Era tão para frente, que o povo lá da Boa Vista apelidou-lhe de bico-de-chuteira. Vivia se metendo em confusão. Uma vez, se não fosse Simão, seu pai, os valentões lá do São Francisco teriam quebrado em pedacinhos o mulherengo. Tudo porque encontraram Geraldino enrabichado com a irmã de um deles, numa noite de forró. Correram tanto atrás dele, que, se não fosse a interferência de Simão com sua relepa, eles teriam amassado os caroços do meu filhote. Quando viram Simão com o ferro empunhado, foi uma freada só de valentões. Uns cairam no rio, outros subiram o morro do catuá que nem bala e o mais azarado, ficou agarrado pela calça na cerca de arame, todo mijado de medo. Depois dessa, nunca mais buliram com o menino.
Por outro lado, meu pai negava todas as histórias relativas às peraltisses de sua mocidade. Ele dizia que se acendesse uma vela e saíssem por ai, não achariam nenhum rastro dele. Eu sempre tive certas dúvidas, mas acabava acreditando no que ele dizia.
Passado algum tempo, a chuva, caindo mais fraca, deixava-nos mais esperançosos. Para o lado da serra do macaco já se via uns pedaços de céu aberto. Também lá para as bandas da Sargeira o tempo estava melhor. Somente, acima do morro do papagaio, havia umas nuvens escuras. Sentia naquele instante que iríamos balançar o esqueleto.
Sentado no banco da cozinha, eu observava Vadico na sala, ensaiando alguns passos. Podia ver também, Chiquinho censurando os erros e aplaudindo os passos corretos. Fiquei ali observando e lembrando do que minha mãe dizia: "esses dois se entendem muito bem. Nunca brigam e estão sempre juntos. Faz gosto ter dois filhos assim".
Distraído, olhando o ensaio de Vadico, tomei um susto quando Chiquinho gritou: pessoal! a chuva parou! vamos picar a mula. Corri lá fora e pude ver que maninho estava certo. A chuva realmente tinha parado e além disso, o céu estava quase todo azul. Vadico a essa hora já se despedia de minha mãe: __ Benção mãe! __ Deus te abençõe meu filho! cuide de seus irmãos, viu! cuidado com a bebida. Despedi também de minha mãe e saimos com a certeza de que depois daquele contratempo, aquela seria a melhor noite de forró de nossas vidas.
Jotta F.